Origem do termo Grão-Pará

Origem do termo Grão-Pará

Quem conhece um pouco da história do Brasil já deve ter esbarrado com o termo ‘Grão-Pará’, que já foi capitania, província e estado. Agora, diga-me: de onde esse ‘Grão’ surgiu? Como já poderíamos imaginar, a história do Pará e de seu nome está intimamente ligada à opulência do rio Amazonas.

Pense num rio grande, enorme, gigante! “Gigante”, assim o padre português Simão de Vasconcelos o descreveu aos europeus, em 1663, nas suas ‘Noticias curiosas e necessárias das cousas do Brasil’: qualquer outro rio do mundo, à vista do Amazonas, “fica sendo um pequeno pigmeu em comparação de um grande gigante”.

E mais! Simão escreveu que o mundo antigo se orgulhava dos seus famosos rios – “a Índia, do seu sagrado Ganges; a Assíria, do seu ligeiro Tigre; a Armênia, do seu fecundo Eufrates; a África, do seu precioso Nilo” –, mas, comparados ao Amazonas, “todos estes juntos em um corpo são pouca água”. De fato, em termos de vazão, da lista dos oito maiores rios que desembocam no mar, a soma do volume d’água do segundo ao oitavo não ultrapassa o do Amazonas (média de 209 mil m³/s). É um mar de água doce!

Foi o que pensou o explorador espanhol Vicente Pinzón, em 1500, chegando ao estuário do Amazonas. Batizou-o como ‘Río Santa María del Mar Dulce’, depois reduzido a ‘Mar Dulce’ (Mar Doce, em espanhol).

Espanhóis para lá, portugueses para cá. O maior rio do mundo estava no território da Espanha, segundo o Tratado de Tordesilhas. Por isso, era também espanhol o nome pelo qual o rio ficou conhecido por muitas décadas, desde 1513: ‘Río Marañón’ (Rio Maranhão). Até hoje os etimólogos não bateram o martelo quanto à origem e o significado de ‘Marañón’. Uns dizem ser tupi; outros que é um sobrenome espanhol existente desde, pelo menos, o século XIII.

Bem, o fato é que a região toda da costa do litoral Norte do Brasil acabou ganhando o nome de Maranhão e, depois de tantas lambanças cartográficas e políticas, ficou sendo o nome do estado brasileiro cuja capital é São Luís. Quanto ao rio, outro nome, de origem espanhola, se popularizou.

Em 1542, o explorador Francisco de Orellana tornou-se o primeiro europeu a percorrer o grande rio, do Equador à foz. Por sua incrível navegação, que durou nove meses, o rio foi rebatizado como ‘Río de Orellana’.

O que mais chamou a atenção nessa aventura, no entanto, não foi travessia do espanhol pelo rio, mas o incrível relato duma contenda que teria lá ocorrido. O padre Gaspar de Carvajal, que acompanhou Orellana, descreveu com detalhes um ataque que certos indígenas teriam feito à sua embarcação: “parecia que choviam flechas”. Os soldados de Orellana revidaram com tiros, num quebra-pau que durou mais de uma hora.

Os indígenas beligerantes eram liderados por doze mulheres, que Gaspar de Carvajal denominou “amazonas”. Segundo o que contou, eram altas e brancas, de cabelo longo e trançado, de braços fortes e vigorosos. Andavam seminuas, tapando apenas as vergonhas. Munidas de arco e flecha, cada “amazona” guerreava com a força de dez homens. Por causa desse ocorrido fantástico, que remeteu às mitológicas amazonas da Antiguidade, o rio ficou conhecido por ‘Río de las Amazonas’.

Mas outro nome havia de aparecer...

Em 1614, o entomólogo francês Claude d’Abbeville voltou duma expedição ao Maranhão. Ele disse ter conhecido um indígena que se dizia originário “da terra dos cabeludos”, um lugar perto do Amazonas, ao longo de um bonito rio chamado ‘Pará’. Essa é a primeira menção escrita do rio Pará, que forma o complexo estuarino ao sul da ilha de Marajó.

‘Pará’, em tupi, significa ‘rio grande’ ou ‘mar’. É um elemento de composição que aparece em outros topônimos brasileiros, como ‘Paraná’, ‘Paraguai’, ‘Paraíba’, ‘Paranaguá’ e ‘Paranapanema’.

Com tantos espanhóis, franceses e holandeses rondando aquela área, demorou, mas a Coroa Portuguesa começou a finalmente se preocupar em ocupar aquela região, o que culminou na fundação de Belém, em 1616. Os portugueses sabiam que parte significativa das conquistas é a atribuição dum novo nome. Então, não era ocasião de se manter aquelas nomenclaturas espanholas, ‘Amazonas’ ou ‘Marañón’. Se a desembocadura ao sul da ilha de Marajó era o rio Pará, os portugueses, então, passaram a denominar o rio da desembocadura ao norte como ‘Grão-Pará’.

‘Grão’ era um jeito antigo de se grafar o adjetivo ‘grande’. É a forma que aparece nas palavras ‘grão-duque’, ‘grão-mestre’, ‘grão-rabino’ e ‘grão-vizir’ (o da música ‘Chão de giz’, 1978, de Zé Ramalho).

Tão logo, em 1621, já estava oficializada a Capitania do Grão-Pará. O rio, no entanto, já estava mundialmente famoso por Amazonas – não tinha mais jeito. ‘Grão-Pará’ então passou a denominar a região amazônica. Em 1850, a Província do Grão-Pará foi desmembrada em duas partes, a fim de se melhorar a administração. Assim surgia a Província do Amazonas. Com a Proclamação da República, o Grão-Pará passou a Estado do Pará, com o nome simplificado.

Antes de toda essa história, antes de os europeus chegarem à América e rebatizarem tudo o que tocaram, os indígenas chamavam o maior rio do mundo como ‘Paraguaçu’ (‘pará’: mar; ‘guaçu’: grande), o ‘grande mar’.

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